Em entrevista exclusiva ao PORTAL Q, o produtor e ativista cultural na área do rap e hip-hop Romildo Tamujuntu fala sobre música, política, planos para o futuro e outros temas. Sonhador e empreendedor, ele acredita na força acolhedora do rap: “Você pode abraçá-lo de onde você estiver”.

PORTA Q – O Batidas & Rimas comemorou sete anos em 2018, mas você acompanha o movimento hip-hop há muito mais tempo. Que mudanças você percebe quando compara a época de quando você começou a acompanhar o hip-hop com o que o movimento é nos dias de hoje?

ROMILDO TAMUJUNTU – A mudança é gigantesca porque antes, os artistas de hip-hop não
tinham praticamente nenhum espaço na mídia, nos grandes shows, nos grandes palcos. Hoje, por exemplo, muita gente que passou no nosso palco, nas primeiras edições do Batidas & Rimas, figuram em grandes bandas, são grandes artistas. Posso citar os rappers Sant e Kayu, integrantes do Poesia Acústica, grupo que têm rodado o Brasil inteiro. E a galera que tá começando já vem com esse horizonte mais aberto, com esses exemplos a seguir.

PORTAL Q – Um famoso verso de Mano Brow diz que “periferia é periferia em qualquer lugar”, mas cada lugar tem o seu perfil, a sua personalidade própria. Qual seria a especificidade da Baixada Fluminense?

ROMILDO TAMUJUNTU – A galera da Baixada sempre fala mais do seu dia a dia, dos
sofrimentos, dos perrengues, da falta de oportunidade e de opções. Podemos caracterizar
como um perfil não muito festeiro. É um som mais sério, mais de mensagem e que está
sempre colocando o dedo na ferida.

PORTAL Q – O rap traz consigo uma grande capacidade de dar voz para quem nunca pôde falar. Isso tem avançado muito ultimamente com o aumento no número de artistas mulheres e LGBT. Como você avalia esse processo?

ROMILDO TAMUJUNTU – É uma quebra de paradigmas. Quando, no meado dos anos 1990,
podíamos imaginar a trajetória um rapper com a qualidade e a força do Rico Dalasam (rapper paulistano representante da comunidade LGBT)? A temática das letras tem se expandido, incorporado novas reivindicações. O mesmo ocorre com as mulheres e suas pautas e sua visão de mundo. O rap e o hip-hop se agigantam cada vez mais com a presença de novas vozes.


PORTAL Q – E o rap de direita nisso tudo, como fica?

ROMILDO TAMUJUNTU – (risos) o bolsonarismo está bem atuante. Podemos perceber entre a galera uma separação entre a galera de esquerda e de direita. Eu particularmente recebo esse movimento do rap de direita com muita surpresa. Agora, tem um detalhe, o rap surgiu nos guetos da Jamaica como uma voz de recusa, de resistência ao poder. Ninguém é dono do rap. O rap é livre. Você pode abraçá-lo de onde você estiver. Mas se você não entender de onde ele veio, fica difícil saber para onde ele vai.

PORTAL Q – Quais são os horizontes do Batidas & Rimas para esse ano de 2019?

ROMILDO TAMUJUNTU – Vamos começar 2019 com o pé na porta (risos)! No próximo dia 08 de fevereiro no espaço Portal Cultural, no centro de Queimados, vai rolar o Batidas Summer. Vai ser um evento beneficente em parceria com o Portal Queimados, o Palco Aberto e Mundo Melhor. Um baile dançante com entrada “custando” um quilo de alimento não perecível. O arrecadado será destinado à APAE de Queimados. Muito hip-hop, muito trap, muito Sampa rock para a galera curtir a noite toda.

Ser feliz é pensar, sentir e amar o próximo. Isso o hip-hop ensina. É só querer aprender.

Produção: Roberto Azevedo, Professor, 
Doutor em História e agitador cultural.

PUBLICIDADE LOCAL

COMENTÁRIOS