Em texto sereno, sem os arroubos de viés ideológico de esquerda ou de direita, especialmente escrito para os leitores do PORTAL Q, o Professor Roberto Azevedo, Doutor em História das Ciências e da Saúde, pela FioCruz, e professor da Rede Pública do município de Queimados-RJ, tece considerações sobre a renúncia ao mandato de deputado federal e a “fuga” para o exterior de Jean Willys.

Roberto toma o drama de Jean Wyllys como alerta para quem acredita na Democracia como “um porto seguro onde as diferenças coexistam de forma civilizada”. Diz que a ameaça a Jean Wyllys, que retira temporariamente seu brilho de nosso campo de visão,  é um golpe contra a democracia. E conclui, filosoficamente: “… é piscando, com a intermitência de sua luz, que o farol guia os navegantes.”

“Jean Wyllys: ame-o ou deixe-o 

Causou sensação na opinião pública a notícia de que Jean Wyllys abriria mão do terceiro mandato como deputado federal devido a ameaças de morte que estaria sofrendo. Dono de uma trajetória imprevisível e surpreendente, Jean se tornou um expoente na defesa da pauta LGTB e demais minorias, bem como dos direitos humanos. Sua atuação no Congresso Nacional lhe conferiu notoriedade, prestígio e prêmios. Também conquistou desafetos e inimigos.

Não é segredo para ninguém que a atuação de Jean Wyllys sempre esteve sob a mira de críticas severas, insinuações maledicentes e algumas mentiras deslavadas. A coisa chegou a tal ponto, que uma desembargadora sugeriu – de “brincadeira”(!) – o “fuzilamento profilático” do deputado. Mas isso foi além da bravata e da brincadeira.

Investigações revelam que ele também estaria sob a mira de armas. Segundo o
Ministério da Justiça, são recorrentes as ameaças ao parlamentar. Detalhe não menos importante: Jean é do mesmo partido de Marielle Franco, executada em março de 2018, e de Marcelo Freixo, ameaçado de pela milícia carioca.

“É um crime contra a democracia”, definiu o vice presidente da república. “É necessário que seja dada resposta rápida e firme de instituições como a Polícia Federal e o Ministério Público”, defendeu a procuradora-geral Raquel Dodge. “Lamenta-se a decisão de deixar o país”, anunciou em nota o Ministério da Justiça, reforçando, entretanto, que foram instaurados “diversos inquéritos” e que “as investigações estão em andamento”.

O presidente da república não se pronunciou.

Enquanto isso, alguns celebram com trinados nacionalistas a decisão do deputado de deixar o país. Ao saber do fato, Carlos Bolsonaro, filho do presidente, publicou em sua conta do twitter uma mensagem que demonstra sua aversão à sutileza: “Vá com Deus e seja feliz!”.

Vivemos tempos em que pensar diferente e questionar o status quo é tomado como crime. E se não há crime, no sentido estrito, convém inventá-lo. Não por acaso, após o anúncio do autoexílio de Jean Wyllys, surgiu a hipótese – misto de caricatura e paranoia – de que isso seria na verdade uma estratégia de fuga. Fuga devida ao fato de ele ser nada menos que o mandante do atentado ocorrido em Juiz de Fora contra Jair Bolsonaro, durante a campanha presidencial. Isso em um momento em que todas as pesquisas para o segundo turno indicavam a derrota do candidato do PSL. Tal história nos revela um Jean Wyllys visionário que, recusando as pesquisas, conseguiu antever a vitória do ex-capitão do exército. Logo, deveria matá-lo!

Entrando na lógica desse delírio, devemos aceitar que um representante local do complô internacional de esquerdistas – a saber, Wyllys – em vez de contratar um time de snipers e distribuí-lo pelos prédios no momento em que Bolsonaro era carregado nos ombros de seus seguidores – com a cabeça à disposição da pontaria dos atiradores –, preferiu aliciar um sujeito armado tão somente com um facão de questionável poder de corte e perfuração. Esse sicário solitário teria a missão de agir no meio da multidão, com altíssima possibilidade de ser capturado – o que de fato ocorreu.

Acreditar nisso seria de uma ingenuidade que beira a infantilidade.

Não nos deixemos enganar por canhestras teorias da conspiração. Jean fugiu sim, mas por medo da morte. Medo de ter sua cabeça estraçalhada a tiros, tal como ocorreu com Marielle. Em qualquer condição isso já seria horrível, mas é ainda mais aterrador por se tratar de um representante do povo eleito democraticamente. Dessa forma, a ameaça não é direcionada somente a um indivíduo, mas à soberania do povo.

A democracia tem sofrido golpes impiedosos e corre o risco de naufragar em um mar tormentoso. O exemplo deixado pela luta de Jean Wyllys, porém, segue a guiar quem acredita na democracia como único caminho para águas mais calmas. Para um porto seguro onde as diferenças coexistam de forma civilizada. Por hora, seu brilho se retira de nosso campo de visão. Mas a luta persiste. Porque é piscando, com a intermitência de sua luz, que o farol guia os navegantes.”

 

Roberto Azevedo é professor e doutor em história

 

NOTA DA REDAÇÃO

Clique aqui para ler a matéria que mostra como viralizou a fake news sobre suposto envolvimento de Jean Wyllys no atentado contra Bolsonaro.

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