“Quando sinto que a água está parada demais eu faço o meu maremoto”

Teatro, dança, artes plásticas, literatura. São muitas as faces do multiartista carioca
Rona Neves. Inquieto, ele fala ao PORTAL Q sobre sua trajetória de mais de trinta
anos. Fala também sobre família, sobre espiritualidade e sobre seus planos para o
futuro.

PORTAL Q – Como você descreve sua formação como artista?

RONA NEVES – Ação! O que me forma é a ação, o movimento. A necessidade que eu
tenho de falar sobre questões que são importantes e interessantes para mim através da
minha arte, seja na pintura, na escrita, etc. Eu não me sinto formado, eu me sinto me
formando, em contínuo processo de formação. É exatamente esse movimento que me
define, essa inquietação de buscar sempre novos caminhos.

PORTAL Q – Quais os temas que orientam sua visão como artista?

RONA NEVES – Tudo o que me formou como homem, como cidadão, como pessoa,
como artista, tem muito a ver com os diálogos que eu tinha com o meu avô, com o meu
bisavô, com o meu pai, com a minha mãe, com as pessoas mais velhas. Isso serviu
como referência para eu falar sobre religião, sobre a importância da família, sobre a
força da fé, sobre a noção de comunidade, sobre compartilhar a vida com a vizinhança e
com quem está ao redor. Dessa forma, quando eu falo da minha família, falo da minha
formação. Quando falo do lugar de onde eu vim, o Morro dos Pretos Forros (Zona Norte
do Rio de Janeiro), eu falo de como eu me formei nessa comunidade. Quando falo do
Candomblé , eu falo da importância da fé na minha família na busca de soluções para os
desafios do dia a dia. São esses os caminhos que me orientam.

Foto: Tyago Thompson

 

PORTAL Q – Como a arte aconteceu em sua vida e qual tem sido o estímulo para que
ela permaneça tão vibrante?

RONA NEVES – Eu me expresso como artista desde que me entendo como gente. Eu
dançava sem saber que era bailarino, atuava sem saber que era ator e desenhava sem o
intuito de me tornar um desenhista ou um artista visual. Sempre fui tomado pela
curiosidade de experimentar, de transformar a maneira como eu via o mundo. Isso se
deu, primeiramente, através da dança, da vontade de me expressar através do meu
corpo. Depois veio a escrita, onde eu questionava uma série de coisas por meio de
contos, peças e poemas. Por fim veio o desenho que foi uma espécie de complemento.
Percebi que eu também precisava desenhar o que sentia. Dançar, falar e escrever não
eram suficientes. Não bastava. Hoje quando pinto uma tela, ela vem carregada de
histórias e essas histórias vêm carregadas de diálogos. E ali eu estou gritando! O
principal estímulo dessa arte como grito é a renovação, a descoberta. Quando sinto que
a água está parada demais eu faço o meu maremoto e mudo. Eu sempre falo que eu não
nasci para ser lago, nasci para ser rio, para escoar, para desbravar, para criar caminhos.

Foto: Tyago Thompson

PORTAL Q – O que representou o período de quatro anos em que fez parte da Z42
(espaço cultural que conta com galerias e ateliês de arte contemporânea localizado no
bairro do Cosme Velho – Zona Sul carioca)?

RONA NEVES – A Z42 contribuiu muito nessa caminhada. Foi onde eu me posicionei
mais como artista. Foi onde fiz a minha primeira mostra individual – “Setembro Doce” –
em 2018. Quando cheguei ali e tive contato com artistas experientes que vinham de
grandes exposições, eu comecei a perceber que aquilo representaria uma importante etapa na minha caminhada. Vejo o meu período na Z42 como uma forte metáfora da
minha concepção de arte: ação e movimento. Ali cumpri um ciclo.

Foto: Tyago Thompson

PORTAL Q – O que a galeria/ateliê GÁS, que você vai inaugurar no bairro da Piedade
– Zona Norte do Rio de Janeiro –, representa nessa nova etapa da sua carreira?

RONA NEVES – GÁS é o que precisamos ter para a vida toda. A vida é breve e, ao
mesmo tempo, generosa. Se pensarmos na potência do viver, encontraremos muito para
colher, para criar, para experimentar! Esse novo espaço, esse novo desafio, me estimula
e me motiva como artista. A galeria/ateliê GÁS busca potencializar a minha noção de
arte como ação e movimento numa relação de diálogo com a cidade que permita levar a
minha arte para onde eu quiser. O espaço, que até então era um galpão desativado de
uma serralheria, fica num bairro distante, completamente fora do circuito de centros e
galerias de arte concentrado nos bairros ricos e centrais. GÁS é uma provocação e um
posicionamento. Fiz uma opção pelo periférico, ali é o meu centro, ali eu caibo.

Foto: Guido Dowsley Paes Leme

PORTAL Q – Que pergunta deixou de ser feita nessa entrevista, mas você gostaria de
falar?

RONA NEVES – Gostaria de falar sobre a importância do Candomblé na minha vida e
o tanto de ensinamento que ele trás na vida de quem busca aprendizado,
compartilhamento e amor. O Candomblé sempre foi para mim a extensão do quintal da
minha casa. Nele eu fui educado – educado, não doutrinado! Preparado para vida a
partir da grandiosidade das coisas miúdas: aprender a dar a bainha na calça, lavar a
própria roupa, respeitar e reverenciar os mais velhos. Um respeito que, além dos orixás,
inclui as pessoas que nos protegem com amor. Essa forma de ver o mundo eu herdei do
Candomblé, dos conselhos da ancestralidade, dos mais velhos. Tudo isso reverbera em
minha vida. Assim, sigo antenado com o presente, de olho no futuro, mas conectado com o passado. Isso para mim representa a liberdade.

Fernando Lemos/Agência O Globo

Colaboração: Prof. Roberto Azevedo

 

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