Texto: Roberto Azevedo – doutor em história das ciências e da saúde pela Fiocruz, professor da rede municipal de ensino de Queimados-RJ

“Acompanhamos perplexos no dia de ontem, sexta-feira, 25/01, as informações sobre a tragédia em Brumadinho (MG). Após o rompimento de uma barragem da mineradora Vale S.A., uma língua de lama lambeu parte da cidade, localizada na região metropolitana de Belo Horizonte, deixando para trás um cenário de devastação. Cada informe atualizado aumenta o saldo dos prejuízos materiais e a quantidade de mortos e desaparecidos.

A Vale S.A. disponibilizou um “atendimento humanitário” às vítimas. Em coletiva à imprensa, o presidente da empresa disse estar “totalmente dilacerado”. O governador de Minas Gerais informou estar “acompanhado pessoalmente” todos os trabalhos das forças de socorro emergencial pós-tragédia. O presidente, por meio de decreto, criou um órgão de nome pomposo, “Conselho Ministerial de Supervisão de Respostas a Desastre”. Bolsonaro prometeu que tomará “todas as medidas cabíveis e possíveis para minorar os danos na região”. O judiciário bloqueou R$1 bihão da Vale para “amparo às vítimas e redução das consequências”. Na Bolsa de Nova Iorque as ações da mineradora despencaram.

A imprensa faz o seu papel. Helicópteros sobrevoam o rio vermelho e oferecem a dimensão espetacular da destruição. As imagens em super zoom levam ao público as silhuetas cor ferrugem dos sobreviventes. Homens, mulheres, crianças, vacas, cães, cabritos e porcos desfilam assustados pela tela da TV. Repórteres com semblantes consternados colhem relatos lacrimosos dos moradores que perderam tudo (inclusive familiares). Na pressa de cumprir a missão de informar, a cobertura midiática opta por qualificar o episódio como “desastre ambiental”, deixando um pouco de lado, por hora, a responsabilidade técnica (e ética?) da Vale S.A.. Opções jornalísticas…

Para o especialista em comunicação e professor da USP, Wilson da Costa Bueno, existe uma “cobertura fragmentada, descontextualizada e imprecisa da problemática ambiental”. Analisando as primeiras ações da cobertura da imprensa em uma tragédia semelhante à de Brumadinho, ocorrida na cidade de Mariana em novembro de 2015, Bueno destaca que predominou nos jornais um “alto teor emotivo” sem a devida investigação para o esclarecimento dos fatos. Ao que parece, a história se repete.

Precisamos de um jornalismo cidadão que deixe de lado a estética sensacionalista e rasa e se aprofunde na investigação. O apetite pantagruélico das empresas deve ser fiscalizado, denunciado e contido. Enquanto a contabilidade da Vale S.A. amarga perdas temporárias na bolsa, a contabilidade das vítimas amarga perdas que são eternas. Lares, animais e objetos de estimação, fotografias, pessoas amadas se foram e nunca mais voltarão. A imprensa fareja bem o rastro de lama, de dor e de lágrima. Também deve aprender a farejar o rastro dos culpados. Talvez não o faça por prudência. Pelo risco de encontrar uma quantidade ainda maior de lama… ”

Texto:
Roberto Azevedo – Doutor em História das Ciências e da Saúde, pela FioCruz, e professor da Rede Pública do município de Queimados-RJ.

 

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